Diferentes modelos em Mediação*

Tania Almeida

Em sua origem voltada para questões comerciais e empresariais, a Mediação estruturada como processo utilizou-se, primordialmente, das técnicas de negociação da Escola de Negociação de Harvard (Harvard Negociation Project). À medida que o instrumento passou a ser utilizado por áreas em que a emoção tinha maior permissão para fazer parte do diálogo, foi incorporando outros pilares teóricos, humanizando-se. O modelo inicial dirigido exclusivamente, para o conflito foi denominado Mediação para Acordos (Transacional) e ocupava-se particularmente das questões, não dos conflitantes.

A teoria da comunicação foi ao seu encontro quando o processo de Mediação sofreu mudança paradigmática. Um teórico da Negociação Robert A. Barush Bush e um teórico da Comunicação Joseph P. Folger construíram juntos um modelo de trabalho que privilegiou o conflitante em lugar do conflito. A denominada Mediação Transformativa, ao inverso do modelo anterior, ocupou-se dos personagens mais do que da substância. Decidiu cuidar dos litigantes e situar o acordo na condição de possibilidade, não de finalidade. Ergueu-se sobre a proposta de auxiliar as pessoas a reconhecer, em si mesmas e no outro – adversário, as necessidades, as possibilidades e a capacidade de escolha e de decisão (empowerment e recognition). Preconiza-se que tal propósito promove a transformação na relação e viabiliza, como consequência natural, o acordo, ator coadjuvante no processo.

Deve-se a Sara Cobb a inauguração do Modelo Circular-Narrativo, o qual, como indica o nome, agregou o pensamento sistêmico com sua proposta de circularidade, o processo reflexivo capacidade ímpar dos humanos e a teoria das narrativas oferta do mundo literário da segunda metade do século passado , à tarefa pós-moderna de encontrar na Mediação um instrumento de pacificação social dedicada à resolução, manejo e prevenção de controvérsias. É possível que Sara, uma expert em negociação da Escola de Harvard, tenha extraído da convivência com Carlos Sluski, seu marido e terapeuta de família dedicado ao estudo de redes sociais, a preocupação de tomar em conta o discurso das redes de pertinência, também como foco de atenção em seu trabalho. Desta maneira, o Modelo Circular-Narrativo abrange as propostas de:

busca de informação sobre o processo de disputa e seu objetivo;

desestabilização das ‘histórias oficiais’ relatos e alternativas trazidos e construção de ‘histórias alternativas’ relatos e alternativas ampliadas pelas partes no processo de Mediação;

construção e confecção de acordo.

Esse modelo agregou, à preocupação com o conflito, igual preocupação com os conflitantes e se dispôs a cuidar da relação entre litigantes tanto quanto da construção do acordo.

Atualmente, a Mediação é reconhecida por sua característica transdisciplinar, uma vez que agrega saberes relativos ao Direito, à Psicologia, à Sociologia, à Antropologia, à Filosofia e a outras tantas disciplinas, oferecendo a possibilidade polivalente de um instrumento capaz de se tornar adequado aos contextos em que seu emprego se faça preciso.

Teoria da Negociação, Teoria da Comunicação, Visão Sistêmica, Visão Construtivista / Construcionista Social, Análise do Discurso, Processo Reflexivo, Teoria das Narrativas e Teoria das Redes Sociais compõem hoje parte do instrumental teórico dos distintos Modelos de Mediação, para serem combinados de acordo com o tema a ser mediado, o contexto da Mediação e o estilo do mediador.

QUADRO SINÓPTICO DOS TRÊS MODELOS CLÁSSICOS

MEDIAÇÃO PARA ACORDOS (TRADICIONAL) MODELO NEGOCIAL

Os Quatro Princípios de Harvard

MEDIAÇÃO TRANSFORMATIVA (BUSH & FOLGER) MODELO TRANSFORMATIVO

Empowerment

Recognition

MODELO CIRCULAR NARRATIVO (SARA COBB) MODELO NARRATIVO

Teoria Sistêmica

Teoria do Observador:

-Visão Construtivista / Construcionista Social

Teoria das Narrativas

Processo Reflexivo

Redes Sociais

A situação em pauta, a etapa da Mediação que está sendo objeto do trabalho, o tipo de relação (histórica e pretendida) existente entre os mediados e o estilo de atuação do mediador, demandam a eleição dos norteadores privilegiados pelos diferentes modelos.

Em Resumo:

A Mediação para Acordos reinaugurou a utilização da Mediação como instrumento de Resolução de Disputa na década de 70 e está especialmente assentada no quarteto técnico conhecido como “Os Quatro Princípios de Harvard”. Este modelo mais estratégico de mediar foi incorporando técnicas pautadas em pressupostos teóricos que privilegiam a interação na construção do homem e dos eventos de que ele participa.

Tal movimento originou um estilo de mediar que, por estar atento à relação entre as partes em conflito, veio possibilitar um ganho para além do acordo, a transformação qualitativa da relação Mediação Transformativa. A Mediação Transformativa tem sido o estilo de eleição para as Mediações que envolvem relações que se perpetuam no tempo, enquanto a Mediação para Acordos segue extremamente útil para as negociações pontuais entre pessoas que não pretendem se manter em relação/interação.

Com igual potencial transformativo, o Modelo Circular-Narrativo de Sara Cobb, amplia os norteadores teóricos para o exercício da Mediação. Tendo a reflexão como pano de fundo, este modelo convida-nos a pensar sistemicamente (Teoria Sistêmica), a considerar a descrição da realidade como construção individual (Visão Construtivista), a ter em conta que os indivíduos são a síntese de sua interação com o meio (Visão Construcionista Social), a entender as narrativas como expressões de leituras pessoais mais do que traduções de fatos (Teoria das Narrativas e Teoria do Observador), e a considerar que o homem fala por si e como representante de sua rede social de pertinência, condensando em sua fala, múltiplos discursos (Teoria das Redes Sociais).

 

* Publicado no site MEDIARE em 2004

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