O terceiro milênio traz
desafios desconhecidos até então. O homem chega
ao terceiro milênio especialmente aparelhado para a beligerância
e sedento de mecanismos que garantam a paz social. Compete avidamente
em alguns campos da convivência e encontra na colaboração
a única forma de garantia da sobrevivência. Tem
uma busca crescente por liberdade e procura bem cuidar da necessária
interdependência entre pessoas, países, mercados.
Para lidar com esses e outros
contrastes, identifica na convivência pacífica
o bem maior. É ela quem pode possibilitar a coexistência
da competição e da colaboração,
das diferenças culturais, de ideais e de valores. É
ela quem pode viabilizar um presente e gerar um futuro resguardados
da violência como forma de interagir com o outro e de
manejar tantos contrastes.
Compor diferenças - entre
pessoas, instituições, países e culturas
- de forma a mantê-las legitimadas e a encontrar uma solução,
ou maneira de lidar, que atenda a todos é o que pode
garantir uma convivência pacífica. Os mercados
comuns, as fusões empresariais, as ações
cooperativas em torno ao meio ambiente, as parcerias relativas
a projetos são exemplos disso.
A Mediação
de Conflitos surge, neste cenário, guardando
especial coerência com todas essas necessidades –
a composição de diferenças com soluções
de mútuo benefício. Pensada inicialmente para
ser um método autocompositivo de resolução
de conflitos – em que as próprias pessoas
são autoras da decisão -, transcendeu esse propósito.
Autoras das soluções
de suas controvérsias as pessoas tornam-se mais comprometidas
com o seu cumprimento. Sentem-se responsáveis pelo que
decidem, diferentemente de quando as soluções
são impostas por outrem. Criando soluções
que atendam a todas, elas podem manter sua relação
social porque não haverá um ganhador e um perdedor
como ocorre quando as diferenças são resolvidas
por meio de métodos adversariais - quando um ganha e
o outro perde.
A Mediação de Conflitos
é um método autocompositivo também dedicado
à restauração da relação
social, o que a diferencia de outros métodos autocompositivos
como a negociação e a conciliação.
É um processo de diálogo que inclui a desconstrução
do conflito, o restauro da relação social e a
construção de soluções em co-autoria.
Sua operacionalização foi assim pensada porque
acredita-se que a co-autoria, e a resultante co-responsabilidade
necessária para o cumprimento do acordado, somente podem
advir daqueles que puderam tratar o conflito existente entre
eles.
A restauração da
relação social implica em retomar uma qualidade
de comunicação e de convivência pautadas
no respeito mútuo, de forma a garantir a sustentabilidade
do diálogo e a não trazer custos para terceiros
que participam daquela convivência – filhos, funcionários,
sócios, vizinhos, parceiros de projetos ou de trabalho.
Ela é trabalhada em paralelo à identificação
de soluções em benefício mútuo.
São esses os objetivos cidadãos da Mediação:
auxiliar pessoas a construírem soluções
de benefício mútuo, em co-autoria e com comprometimento,
preservando a relação social entre elas.
A Mediação cuida,
então, dos conflitos, da construção de
acordos e da relação social entre os conflitantes.
Por essas características tem sido eleita o instrumento
de resolução de conflitos de excelência
para as relações continuadas no tempo –
relações de vizinhança, de parentesco,
de trabalho, de parceria.
Uma série de benefícios
secundários vêm sendo observados como conseqüência
do seu exercício. Participantes da Mediação
aprendem uma forma pacífica e colaborativa de negociar
diferenças. Cidadãos melhor intrumentalizados
para um diálogo produtivo – aquele que privilegia
a escuta mútua à contra-argumentação,
a construção de consenso ao debate, o entendimento
à disputa – podem atuar preventivamente quando
forem integrantes de controvérsias futuras, assim como
podem atuar como terceiros, facilitando diálogos entre
outros.
São os cidadãos
fazendo a sua parte na soma de esforços que devem ser
multifocais e multidisciplinares quando a direção
é a pacificação social. São os cidadãos
assumindo a responsabilidade por seus atos, elaborando soluções
mais satisfatórias na medida em que são os melhores
conhecedores de suas prioridades e necessidades.
Habituado a passar da negociação
direta para a resolução judicial, sem apelar para
recursos intermediários na busca de resolver controvérsias,
o homem tem judicializado e criminalizado ações
da convivência diária. Ele precisa ser novamente
convidado ao diálogo, recurso primeiro da convivência
pacífica e do respeito mútuo.
Alguns de nós administra
a responsabilidade adicional de atuar como aquele que oferece
uma primeira abordagem para pessoas em conflito. Advogados,
policiais, defensores, terapeutas, religiosos, entre outros,
são os primeiros a serem procurados, ou indicados, para
auxiliar pessoas em suas divergências. É fundamental
que tenhamos a consciência da importância dessa
primeira abordagem. Ela poderá auxiliar a conduzir o
evento da discordância com maior ou menor grau de adversarialidade,
com maior ou menor grau de violência.
Somente a visão global
e multifatorial da convivência humana - compreensão
sistêmica - poderá nos auxiliar a perceber os aspectos,
legais, sociais, emocionais, e outros, dos conflitos. Somente
ela e o nosso constante aprimoramento na busca de conhecer outras
possibilidades para lidar com as controvérsias poderão
fazer-nos cidadãos co-responsáveis por uma abordagem
mais abrangente das questões humanas. Nenhum saber, em
particular, dá conta de tratar os conflitos em sua magnitude.
É preciso visitar outras áreas de conhecimento
se queremos cuidar do desentendimento humano com maior abrangência.
É preciso revisitar nossas
crenças, neste momento em que a dinâmica social
ganha mais horizontalidade, conferindo mais responsabilidades
a cada cidadão em lugar da quase exclusiva responsabilidade
do Estado na tarefa de resolver controvérsias. Vale a
pena examinar se nossos métodos de resolução
de conflitos, se nossas abordagens profissionais, sociais e
educativas, se os valores que praticamos nesses métodos
e nessas abordagens estão coerentes com a cultura da
paz.
Novas competências, novas
habilidades, novos conhecimentos são necessários,
a todos, para lidar com essa solicitação. Cada
cidadão, co-autor do cenário do desentendimento
ou responsável por seu manejo, pode ser, igualmente,
co-autor de sua solução. Faz parte da competência
social do homem deste milênio a habilidade para lidar
com as diferenças e os desacordos de forma pacífica,
implicando-se na solução. Faz parte da competência
social deste milênio, sujeitos mais voltados para a solidariedade
do que para o enfrentamento.
A convivência pacífica,
a ampliação de acesso à justiça,
a prevenção da violência e a inclusão
social, integrantes do conceito de Segurança Integral,
são elementos cuidados pela Mediação de
Conflitos. Práticas políticas e práticas
pedagógicas, ações globais e ações
locais, ações públicas e ações
privadas, ações coletivas e ações
individuais são necessárias para a construção
de uma cultura voltada para a pacificação social.
Façamos a nossa parte.
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