As múltiplas
definições relativas às políticas públicas
nos levam por vezes a entendê-las como políticas governamentais
e partidárias, que estariam então sujeitas às
alterações cíclicas de mudança do poder,
ou, ainda, a compreendê-las como ações que envolvem
múltiplos atores (governamentais e não-governamentais),
possíveis expositores de suas necessidades e interesses e
co-responsáveis pela identificação e implementação
das soluções cabíveis. Inequívoco, no
entanto, é o seu objeto de atuação: toda e
qualquer área social.
Qualquer área social, que naturalmente
implique em políticas públicas, pode produzir conflitos
ou disputas de amplitude e grau variados. Essas disputas ocorrem,
invariavelmente, entre múltiplos atores: a comunidade e aqueles
que representam seus interesses e decisões, distintos órgãos
governamentais, organizações privadas e entidades
não governamentais. Em algumas situações há
uma rápida escalada do conflito e em outras ocorre a exacerbação
de desentendimentos crônicos. Algumas são previsíveis
e outras surpreendem.
Um programa efetivo de manejo de conflitos em políticas públicas
deve ocupar-se de alguns princípios e cuidar de determinados
aspectos:
- como estes conflitos são
um misto de procedimentos, relacionamentos e substância,
é preciso cuidar desses três aspectos em sua resolução.
Os aspectos habitualmente privilegiados na resolução
dessas contendas são os procedimentos e a substância,
com um menor ou nenhum cuidado com as relações.
Ideal seriam os métodos de resolução de
controvérsias que pudessem ocupar-se, de modo equilibrado,
dos procedimentos, da substância e, também, das
relações entre todos os envolvidos;
- como esses conflitos envolvem
múltiplos atores – pessoas físicas e pessoas
jurídicas, órgãos governamentais e não-governamentais
– eles também incluem uma complexa rede de interesses
entre esses atores que, de maneira geral, não têm
um relacionamento continuado, possuem distintos níveis
de conhecimento sobre o tema e manejam diferenciados patamares
de poder e de responsabilidade relativos à questão.
Assim sendo, a resolução desses conflitos tende
a ser desequilibrada no atendimento a esses distintos interesses
e na designação de responsabilidades relativas
a sua provocação e a sua resolução.
Os recursos ideais de resolução de conflitos nessas
situações seriam aqueles que balanceassem o conhecimento
técnico, o poder e a responsabilidade por sua provocação
e resolução e, em especial, atendessem aos múltiplos
interesses da rede de atores implicada;
- como esses conflitos,
além de envolverem uma gama de questões –
financeiras, de saúde, sociais, de valores, técnicas
e outras –, identificam e agregam, invariavelmente, no
curso de seu desenvolvimento, novos temas, por vezes fomentadores
do conflito nuclear e sempre carentes de solução,
os processos mais eficazes de resolução seriam
aqueles que pudessem não apenas cuidar das distintas
questões implicadas, mas também ter a flexibilidade
necessária para incluir os temas novos
Partindo do notório
pluralismo de atores e de temas e da inegável e necessária
interdependência entre eles, a gestão de políticas
públicas deve considerar a negociação
como instrumento fundamental na geração de consenso
e na viabilização de propostas de ação
conjunta, propiciadoras únicas de sua sustentabilidade. Somente
as ações e as soluções que envolvem
seus múltiplos atores, em co-autoria, podem resistir às
alterações cíclicas de mudança de poder.
Somente elas podem melhor utilizar os recursos disponíveis
para satisfazer interesses comunitários vários.
A Mediação de
Conflitos é um instrumento de negociação
assistida por um terceiro, o mediador, que inclui em seus princípios
fundamentais e procedimentos aspectos absolutamente compatíveis
com as demandas, os objetivos e os benefícios concernentes
à resolução dos conflitos oriundos do campo
das políticas públicas.
Os conflitos, de maneira geral, e,
em especial, aqueles advindos de políticas públicas
ocorrem quando os atores envolvidos percebem como incompatíveis
seus objetivos, idéias, necessidades, interesses, propostas
ou projetos. Essa percepção transforma discordâncias
em conflitos e propicia condições para que posições
defensivas antagônicas passem a dominar o diálogo.
Todos os instrumentos adversariais de resolução tendem
a acirrar essas posições uma vez que são elas
os escudos protetores dos interesses e necessidades mais diletos.
A Mediação de
Conflitos possibilita identificar os interesses e as necessidades
que jazem sob as posições adversariais, propiciando
que sejam articulados e negociados. Viabiliza preservar a relação
positiva entre as pessoas envolvidas na medida em que da Mediação
não surgirá um ganhador e um perdedor mas um conjunto
de ganhadores com suas necessidades e interesses atendidos, com
mútuos benefícios contemplados e com as responsabilidades
pela autoria das soluções e por sua execução
compartilhadas.
Os processos de diálogo oriundos
dos métodos alternativos de solução de conflitos,
como a Mediação, são úteis não
somente no manejo de conflitos como também na construção
de projetos e de regulamentações negociadas em políticas
públicas.
A Mediação tem
inspirado a construção de processos de
diálogo que buscam contemplar procedimentos que atendam
às diferentes situações geradas pelos conflitos
ou pelas demandas em políticas públicas, em busca
de produzir os benefícios anteriormente mencionados. Seguem
discriminados três desses procedimentos advindos da Mediação:
- Facilitação
de diálogos: processos pautados no diálogo
cooperativo e na construção de consenso, geralmente
coordenados por uma equipe de facilitadores / mediadores. Esses
processos podem incluir distintos métodos de resolução
de conflitos em seu curso – mediação, negociação,
arbitragem, review boards? e outros -, de forma a melhor manejar
as distintas fases e as diferentes necessidades geradas por
uma questão conflituosa.
- Processos colaborativos:
processos pautados no diálogo cooperativo e na construção
de consenso, geralmente coordenados por uma equipe de mediadores
que, eleita pelas partes envolvidas, com elas estabelece contatos
individuais e conjuntos – reuniões privadas e reuniões
plenárias – auxiliando-as desde a eleição
de seus representantes até o aprendizado necessário
para participarem de fóruns negociais dessa natureza.
Esta equipe desenha o processo de diálogo, o coordena
e mantém-se disponível tanto para acompanhar sua
implantação quanto para o seu monitoramento.
- Construção
de consenso: um exemplo de processo colaborativo, como
acima descrito, com um ritual particular que norteia a sua operacionalização
e estabelece norteadores para a postura participativa de seus
atores.
Alguns procedimentos
são comuns a esses processos, buscam objetivos semelhantes
e ocorrem em uma seqüência que visa à construção
de acordos, sua implementação e monitoramento:
-
Mapeamento e análise do conflito: nesta
etapa identificamos, por meio de entrevistas individuais com
cada grupo de implicados, quem são os atores
envolvidos – os primários e aqueles que sofrerão
os custos e os benefícios das decisões eleitas;
deles solicitamos a descrição do desentendimento
/ problema e sua evolução no
tempo; com eles também obtemos informações
sobre os processos de resolução já
tentados até então.
Ainda nesta etapa identificamos as alianças (uniões
entre alguns) e as coalizões (uniões entre alguns
contra outros) existentes entre os diferentes atores e o seu
mapa relacional – ele nos auxilia a aglutinar determinados
atores em torno a determinados interesses e a desmembrá-los
frente a outros temas.
Durante a análise e o mapeamento do conflito identificamos
as necessidades e os interesses de cada ator, assim como a
necessidade de uniformização de informações
técnicas e de habilitação para participar
de um processo de diálogo que visa à colaboração
e ao consenso. Pode também ser parte desse trabalho
ajudar os seus atores a elegerem seus representantes e a com
eles estabelecer norteadores de atuação nas
negociações.
- Desenho do processo
de diálogo: esta etapa
implica em planejamento e construção de estratégias
que delimitem o passo-a-passo do processo negocial e é
constantemente revista e redesenhada de acordo com o andamento
do processo, seus progressos e impasses.
Dois procedimentos são fundamentais nessa etapa: uma
definição positiva do problema
e uma convocatória adequada a cada
ator de forma a motivá-lo a participar do processo.
A definição positiva do problema precisa contemplar
as necessidades e os interesses de todos os atores, deve mostrar
a interação entre eles e identificar suas necessidades,
assim como delinear benefícios comuns a todos de forma
a motivá-los a participar do processo de diálogo.
- Implementação
do processo de diálogo: durante
esta etapa ocorrem reuniões plenárias e reuniões
privadas envolvendo todos os atores. As reuniões privadas
servem para que os atores negociem internamente a flexibilização
de suas posições baseados nas informações
técnicas surgidas e naquelas advindas do diálogo
entre todos. O aporte de informações técnicas
e a conversa com a imprensa, considerada nesses processos
como mais um ator, são ocorrências vitais nesta
etapa.
Esses processos são pautados na inclusão e na
transparência, o que motiva serem desenhados de forma
a não deixar de fora nenhum dos atores e a manter todos
eles de posse de toda a informação produzida
ou requerida para embasar soluções ou decisões.
O resultado final desta etapa é a construção
de consenso. Por consenso entende-se um conjunto de decisões
que contemple a todos em suas necessidades maiores e com as
quais todos possam conviver (Consensus Building Handbook).
A elaboração de um documento formal que discrimine
um acordo construído dentro das margens da ética
e do Direito, e a sua apresentação às
autoridades competentes, possibilita conferir-lhe valor legal
e normativo.
- Implementação
e monitoramento do acordo: esta é uma etapa
delicada e merecedora de acompanhamento por parte da equipe
de mediadores. Nela são necessárias micro-negociações
que objetivam a operacionalização do acordo
durante a sua fase de implantação. O monitoramento
visa a acompanhar os resultados e as ações de
curto, médio e longo prazos e permite a avaliação
de seu impacto, assim como a identificação da
necessidade de novas negociações.
Os principais benefícios
advindos da utilização desses processos pautados no
diálogo estão especialmente baseados no resgate do
“protagonismo” de seus atores:
- os envolvidos no conflito participam
da construção da solução, em contrapartida
ao paradigma paternalista no qual se submeteriam às soluções
estabelecidas por terceiros;
- participam também da otimização
dos recursos disponíveis no atendimento dos interesses
e necessidades de todos os atores, inclusive daqueles que não
integram diretamente o processo negocial mas são por ele
afetados;
- participam da transformação
de uma convivência ressentida em uma convivência cooperativa
e da conseqüente detenção da escalada do conflito;
- empenham-se no cumprimento
de acordos nos quais todos os envolvidos estão satisfatoriamente
contemplados e são co-responsáveis por sua construção
e execução, o que confere a esses acordos e à
mencionada convivência transformada, sustentabilidade.
Em processos dessa natureza os benefícios
e os compromissos assumidos ficam bem distribuídos, os riscos
políticos, sociais e financeiros ganham equivalência,
os incentivos para cumprir os compromissos estão implícitos
na sua co-autoria e o seu não cumprimento implica em conscientes
riscos para todos.
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